Dom Hernaldo Pinto Farias, sss

Bispo da Diocese de Bonfim (BA),

presidente da Comissão para a Liturgia do Regional Nordeste 3

e presidente da Comissão Episcopal para a Liturgia da CNBB

 

Contam as Sagradas Escrituras uma história… Ou seria estória… Sim, porque história é fato que ficou para trás e que, às vezes, nem nos lembramos mais dos seus detalhes. Ao passo que, estória não! Sempre nos lembraremos, sempre queremos que nos contem, como crianças que pedem aos pais para que lhes contém uma estória. Só quando ficarem adultas é que voltarão a ser crianças novamente, todas as vezes que contarem para outras crianças aquela mesma estória… E ela nunca mais será esquecida.

Quantas vezes são contadas as estórias! Não importa que seja repetida. É exatamente isso que dá o sabor de ser uma estória. Repeti-la é revivê-la, é saber que não será esquecida. Sua repetição é a garantia do encanto de tornála sempre nova… Quem sabe seja por isso, para não esquecer, para reviver e, principalmente, para ser criança de novo, que os idosos repetem uma história várias vezes… para torná-la estória. É o que os teólogos chamam de fazer memória na liturgia… A história é transformada em estória…

Voltando às Sagradas Escrituras, o fato-estória é que, três magos, porque não eram reis, mas sim, sábios que procuravam nos céus, nos astros, nas estrelas, uma resposta para as suas terríveis e conflitantes perguntas sobre a origem, existência e o destino da humanidade, leram em uma bela e grande estrela, que suas questões tinham chegado ao fim, pois a resposta veio através de um menino.

Mas, ainda cheios de curiosidade, continuaram a fazer suas infindáveis perguntas sobre a humanidade: sobre o bem e o mal, sobre o amor e o ódio, se haveria ou não esperança para o ser humano, envolto em tantos desencantos provocados por ele mesmo. O mundo já não mais vivia em paz. Uns dominavam os outros; inúmeras pessoas excluídas das condições mais básicas de seres humanos, pela fome, miséria… Essa história vocês já conhecem…

Depois de tantas procuras e discussões, os magos foram seduzidos pelo brilho e força de persuasão da estrela que os guiou até o menino. Dias de procura, inebriados, hipnotizados pela estrela, chegaram ao lugar onde estava a criança indicada. Perceberam os magos que as respostas para as questões humanas postas por eles e por tantos, não estavam nos céus, no alto, nos astros, mas aqui, numa criança, num menino… “um menino, envolto em faixas, deitado numa manjedoura…”.

Descobriram os magos que aquele menino possuía a chave para as suas questões, pois Deus mesmo viera dar-lhes as respostas. Quantos enfaixados não são encontrados diariamente! Enfaixados pela dor, pela desventura, pela falta de saúde… Vislumbraram os magos, naquele menino, que os enfaixados da vida têm remédio, a vida não está perdida… Que a história foi transformada em estória, com encanto…

Extasiados, contemplaram os três magos, que Deus veio comer conosco… Deus veio cear, fazer festa conosco…! Que aquela manjedoura era o prato de Deus, comendo com a humanidade. Mas, um menino estava no prato! Deus mesmo, seria o nosso alimento? Sim, alimento a nos devolver a força, a esperança e a capacidade de brincar novamente, como crianças. A transformar a vida cotidiana em uma brincadeira séria de meninos e meninas.

Foi por isso que os magos não voltaram a Herodes. Ele não sabia brincar e se alegrar com a vida, como o Deus Menino…

E os magos contaram essa estória aos adultos, que contaram às crianças…

Para não mais esquecer dessa estória, certa vez, alguém decidiu torná-la célebre (celebrá-la) num rito que passou a contar a estória de um Deus que veio brincar com a humanidade, veio brincar de ser humano. A teologia cristã dá a isso o nome de “encarnação”. O Natal é Deus dizendo que o humano se tornou divino, pois Deus veio ao nosso encontro.

E fomos descobrindo na brincadeira, que Deus é uma criança, que “viu a miséria e ouviu o clamor do seu povo”. Viu o humano como os cacos de uma bela obra de arte que se quebrara em mil pedacinhos. Ele então, resolveu não ficar lá em cima, mas veio recolher os cacos conosco, para devolver à vida o seu brilho de arte, de preciosidade, transformando os cacos em brinquedos de criança, pois a vida encontrou sentido de ser: na gratuidade, simplicidade e pobreza de uma criança. E não foi papai-noel quem nos contou isso tudo, porque, sua “estória” não é gratuita…

Assim, começamos a brincar com velas que iluminam as trevas; com pão e vinho, que alimentam e fortificam… E, como crianças, que olhando as estrelas e escutando os pais ou os avós contarem a estória, pudemos sonhar com um mundo mais divino, porque humano, pois Deus nos deu um presente: seu Filho, que veio brincar conosco…

Para “ouvir” novamente essa “estória”, a Igreja começou a se preparar durante quatro domingos, fazendo um caminho espiritual. A “estória” ganhou um ar de surpresa. A surpresa que Deus guardou para toda a humanidade e que, numa noite luminosa será revelada. E chamou esse tempo de Advento.

Nos dois primeiros domingos, celebramos os sinais do mundo que Deus quer para nós e que foram revelados através do Cristo, mas que um dia serão plenificados. Isso alimenta em nós o desejo da vinda gloriosa do Senhor. Nos dois últimos domingos, celebramos a aparição do Senhor em nossa carne, fazendo a memória histórica do seu nascimento em Belém.

No primeiro domingo do Advento, somos a Comunidade-esposa que, vigilante, espera a volta do seu Senhor. Como um vigia que não cochila, permanecemos de pé, numa espera ativa e atenta aos sinais da manifestação de Deus acontecendo no presente da nossa história. Atentos ao Deus que vai transformando nossa história em estória…

Tendo atendido ao chamado para estarmos vigiando, João Batista, no segundo domingo, nos indica a maneira concreta para esperar o Senhor: aterrar os vales das profundas desigualdades humanas; aplainar as colinas, tornando a humanidade uma grande fraternidade… Nossa vigilância se dá, portanto, no trabalho concreto para manifestar o Reino de Deus revelado por aquele Menino.

Mas, Jesus já veio! Como ouvimos na “estória” que fora contada. Assim, no terceiro domingo o Batista dá lugar ao Cristo, que em sua vida e atividade, nos mostrou que, em todos os tempos, ele pode ser encontrado em cada pessoa desfigurada; que ele está presente, recuperando a vida, onde ela é ameaçada, como boa nova aos pobres. E o nosso agir vai tendo como meta a realização do plano de amor de Deus para nós. A referência é sempre aquele Menino-Deus, que nos ensinou como agir.

Somente assim é que Maria, no quarto domingo do Advento, nos impele a receber, a acolher o Emanuel – o Deus conosco, que nos veio visitar. Seu cântico é a certeza da constante intervenção de Deus em nossa história. Cântico que se tornou nosso, da Igreja-Maria-Mulher-Esposa-Mãe, que a cada ano, ritualmente, conta essa mesma história-estória.

E, todos nós como crianças, poderemos cantar, parafraseando Paulo de Carvalho: Os meninos em volta da fogueira vão aprender coisas de sonho e de verdade. Vão perceber como se ganha a vida eterna. E vão saber o que custou a liberdade!

Feliz brincadeira de gente grande!

LITURGIA DIÁRIA