“Bendito o que vem em nome do Senhor”

(Mt 26,46)

Com a Procissão de Ramos, e o Anúncio da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, do Evangelista Mateus¹, damos início, com toda Igreja, a uma “Nova Semana Santa”. E, de per si, “um novo modo de ver” (novus aspectus).

Não obstante o conhecimento que temos da Liturgia celebrada, a cada ano, por meio da nossa convivência eclesial – a chamada Igreja militante² – sua força reside como afirmava Bento XVI, “na capacidade de conectar o homem ao sagrado, sendo um ato de oração e escuta, onde a tradição é valorizada como um tesouro da f锳, onde a Palavra de Deus, como cremos, sempre renova o coração daqueles que se deixam encontrar.

Trata-se, todavia, e como tão bem nos incentivou Papa Francisco à sua leitura, “para que ela renove nossas vidas em esperança e caridade”⁴. “Esperança, como uma âncora e vela, que guia a humanidade em direção a um mundo mais fraterno”⁵, e a caridade, como partilha que transforma, e cuidado que afaga. Em última análise, o amor de Cristo que renova o mundo pela sua Entrega, tornou-nos uma só família. Desse modo, precisamos rezar sempre para fortalecer os nossos ânimos e a força para lutar por um mundo onde reine a paz e a harmonia, sobretudo, em nossas relações.

Com uma “nova Semana santa”, acolhemos, entre cantos e alegria, “Aquele que vem em nome do Senhor”⁶. Mas também, somos agitados e confundidos, por tantas vozes externas, e talvez, por nossa própria voz interior – consciência – que ainda, em muitos casos, se deixa levar por sentimentos pérfidos, completamente contraditórios à humanidade e à fé que professamos.

Trata-se uma ‘via’ tão tenebrosa que nos leva, mais uma vez, a ‘trair e crucificar’, através de ações totalmente nossas. Assim, por tão pouco, o Filho do Homem — o Bendito de Deus Pai, o Rei da Paz — reassume nos dias atuais o papel de ‘servo sofredor’. No entanto, nas palavras do Papa Leão, “Ele permanece firme na mansidão, enquanto os outros se agitam na violência. Que se oferece como uma carícia para a humanidade, enquanto os outros empunham espadas e paus. Que é a luz do mundo, enquanto as trevas estão prestes a cobrir a terra. Ele, que veio trazer a vida, enquanto se cumpre o plano para o condenar à morte”⁷.

Olhando para o mundo que assiste aterrorizado à guerra, à fome, aos conflitos e à morte de tantas maneiras; mundo que mata inocentes numa completa desumanidade, em vista de interesses puramente econômicos e políticos; que se dilacera pelo ódio em tantas formas; que insiste em desrespeitar direitos constituídos e a liberdade dos povos “olhamos para Ele, que foi crucificado por nós, e vemos os crucificados da humanidade”⁸!

E com o lamento do Salmo 21, tomados pela sensação de abandono e solidão, repetimos, recônditos, em nosso sofrimento: por que tudo isto? “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes”⁹?

Com uma “nova Semana Santa”, possamos obter um “novo modo de ver”, (novus aspectus), através do olhar amoroso da Cruz de Cristo, o “Servo obediente”, que confiou no Senhor – sua força, auxílio, proteção e socorro¹⁰.

À Santa Maria, Consoladora dos aflitos e Auxílio dos cristãos, rezemos, a fim de que sejamos cada dia mais conscientes de que: “onde o olhar sobre Deus não é determinante, todas as outras coisas perdem a sua orientação”¹¹.

Ajude-nos a Mãe de Jesus e nossa, a manter o olhar fixo na obediência a Deus; que ela não se limite a um esforço intelectual ou a um ato isolado, mas se torne uma disposição constante do coração, manifestada em gestos concretos de caridade para com os irmãos e irmãs.

Com um novus aspectus, aprendamos a recomeçar!

Pe. Danilo Leal de Souza
Diocese de Alagoinhas-Bahia-Brasil.
Juiz-Adjunto do Tribunal Eclesiástico e de Apelação de Salvador
Doutorando em Direito Canônico e Diplomado em Jurisprudência penal
Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma
✉ reverendodaniloleal@gmail.com

¹ Cf. Mt 21, 1-11; 26, 14-27, 66.
² Cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 954.
³ Cf. PAPA BENTO XVI, Audiência geral, 26 de setembro de 2012.
⁴ PAPA FRANCISCO, Carta Apostólica Aperuit Illis, 30 de setembro de 2019.
⁵ PAPA FRANCISCO, Spes non confundit, 2025.
⁶ Cf. Mt,21,9.
⁷ PAPA LEÃO, Homilia Domingo de Ramos, 29 de março de 2026.
⁸ Ibidem.
⁹ Mt.26,46.
¹⁰ Sl. 21(22), 20.
¹¹ Cf. PAPA BENTO XVI, Audiência geral, 26 de setembro de 2012.

LITURGIA DIÁRIA