Cardeal Dom Sergio da Rocha

Arcebispo de São Salvador da Bahia, Primaz do Brasil

A guerra na Ucrânia tem causado dor, temor e indignação em todo o mundo, reavivando o anseio pela paz, presente no coração de cada pessoa. As cenas de destruição e morte causadas pela guerra, atingindo duramente o povo ucraniano, especialmente os mais frágeis, têm comovido, fazendo-nos sentir uma grande família ferida que habita uma casa comum, destruída ou ameaçada de destruição. Crescem o clamor pelo fim da guerra na Ucrânia e pela paz no mundo. Há conflitos armados que se espalham pela terra, alguns dos quais perduram há muito tempo, necessitando também de maior atenção internacional e de empenho para a sua superação. A guerra nunca é solução para os conflitos; tende a agravar conflitos existentes trazendo sempre sofrimento, destruição e morte.

É preciso superar, nas relações internacionais, a lógica perversa de fazer do mundo um terreno a ser disputado e controlado por poderosos e, sobretudo, a pretensão de alcançar a paz pela força das armas. O Papa Francisco chamou recentemente de loucura a opção pelo drástico aumento dos gastos com armas, tomada por países, como resposta à guerra na Ucrânia. As consequências desta postura armamentista são catastróficas, alimentando inclusive o temor por uma terceira guerra mundial, pelo envolvimento crescente de grandes potências na guerra em curso. Os interesses políticos e econômicos não podem ser mais importantes do que a vida e a dignidade das pessoas e dos povos.

Neste contexto, temos uma ocasião privilegiada para dizer “não” à guerra e “sim” à paz; “não” à violência e “sim” à vida. É preciso optar pela paz! Valores e posturas fundamentais necessitam ser recordadas, em primeiro lugar, o caminho do diálogo e da mediação para resolver conflitos, recusando o recurso à violência com a pretensão de acabar com a violência.

Para terminar guerras, como ocorre na Ucrânia, é determinante o papel dos que têm o poder de decisão política e militar, assim como o fim da violência disseminada na sociedade necessita do empenho das autoridades. Contudo, somos todos responsáveis pelo cultivo de uma cultura da paz na vida cotidiana. É preciso fazer acontecer um mutirão permanente pela construção da paz, que inclui desde os gestos pequenos até as grandes decisões políticas em favor da vida e da justiça social.

A paz não é simples ausência de conflitos. Trata-se de uma realidade de significado profundo e amplo, abarcando a paz consigo mesmo, a paz entre as pessoas, a paz na sociedade, a paz com a natureza, a paz com Deus. O conceito bíblico de “paz”, expresso pelo termo hebraico shalom, significa plenitude de vida, o que inclui condições de vida digna para a pessoa, a família e o povo, assim como, a abertura a Deus, fonte da verdadeira paz. A paz é fruto do amor e da justiça social, dom de Deus a ser suplicado na oração, acolhido e compartilhado com gratidão e responsabilidade.

*Artigo publicado no jornal Correio no dia 28 de março de 2022.

LITURGIA DIÁRIA